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Publicado no Jornal de Piracicaba em 05/06/2020

A pandemia permitiu que repensássemos as diversas maneiras de viver em sociedade. Estamos iniciando um processo de retorno às atividades de forma planejada, e muitos dizem que, em breve, voltaremos ao normal. Entendo que se atribui ao normal o que experimentávamos antes da Covid-19, mas acredito que não teremos mais o que tínhamos e não seremos mais os mesmos, pois todos os setores foram forçados de alguma forma a se adaptarem muito rapidamente, para se adequarem às solicitações do mercado.

A pandemia despertou em nós novos anseios no sentido de vivermos mais em comunidade e estarmos mais conectados à internet, bem como darmos mais importância à preservação da natureza. Pode-se afirmar que novos valores e normas culturais surgirão, com objetivo de valorizar o bem-estar e os ecossistemas.

O fato é que, com o coronavírus, a realidade se mostrou diferente daquela à qual estávamos habituados, e o que tentávamos implementar há anos virou realidade em semanas. O setor educacional, sempre resistente aos ventos da mudança e privilegiando um modelo de aulas expositivas, permitiu a entrada definitiva da tecnologia nas salas de aula.

O cenário pós Covid-19 aponta para maior uso da tecnologia e um maior número de escolas adotando o ensino híbrido, em inglês, blended learning, modalidade que integra as melhores práticas educacionais off-line e on-line. Pode-se dizer que nessa modalidade mistura-se o processo de aprender.

Há momentos em que o aluno estuda sozinho, aproveitando ferramentas on-line, em outros, o ensino acontece de forma presencial, valorizando a interação entre aluno e professor. Os alunos deste século são chamados de nativos digitais, termo utilizado pela primeira vez por Marc Prensky, escritor e palestrante americano em educação. A expressão foi criada no início do século XXI para definir aqueles que cresceram em uma cultura digital e, por isso, teriam habilidades diferenciadas, como processar múltiplas vias de informação e usar intuitivamente as ferramentas tecnológicas.

Numa pesquisa com adolescentes americanos, realizada em 2015 pela Pew Research Center, revelou-se que 92% dos entrevistados estavam on-line diariamente e, entre esses, 24% estavam on-line quase que constantemente. Inserir ferramentas digitais no processo de aprendizagem do estudante tem se mostrado mais coerente com o estado da arte da educação. Embora esses alunos estejam imersos no mundo digital, nem sempre têm as competências e os conhecimentos necessários para identificar riscos e oportunidades que nele existem. Nesse sentido, o ensino híbrido traz para a sala de aula a realidade da nova geração.

Apesar de a tecnologia ter entrado definitivamente nas salas de aula, devemos estar atentos a um contexto nacional: a possibilidade do aumento do “gap” digital entre alunos de escolas públicas. Nesse sentido, a maioria das escolas deve adotar o ensino híbrido, e aulas expositivas devem ser substituídas por aquelas que trazem o aluno para o centro do processo de ensino.

Em decorrência do impacto da pandemia na educação no Brasil, penso que teremos uma diminuição das aulas mais tradicionais e expositivas, as quais serão substituídas por metodologias de ensino a distância, que, além de serem mais ativas para essa geração, falam a língua do aluno. O contexto das aulas on-line levou a sala de aula para dentro das casas, e isso forçou as famílias a acompanharem de perto o processo de educação de crianças e adolescentes.

Hoje os pais podem assistir as aulas dos professores, saber o nível de engajamento dos filhos e participar mais ativamente das rotinas e exigências escolares. Vemos muitos docentes que não tinham o pleno domínio das novas tecnologias se saírem muito bem na modalidade de um ensino realizado a distância. Creio no surgimento de uma nova geração de aprendizes, visto que pais, filhos e educadores estão se reinventando em virtude do isolamento.