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Descomplicando o metaverso

Publicado no Jornal de Piracicaba em 29/04/2022

O metaverso é uma nova tendência imersiva de fazer negócios, cuja proposta é aproximar as pessoas em um mundo virtual por meio de plataformas 3D que proporcionam experiências nas quais não há diferença entre o universo digital e o real. É compreendido como um espaço coletivo e virtual compartilhado e constituído pela soma da realidade virtual com a realidade aumentada e a internet.

Seu objetivo é facilitar ações e estratégias que podem ser utilizadas com a finalidade de atrair marcas e consumidores para o mundo virtual. Para muitos, o propalado metaverso não passa de um delírio coletivo dos admiradores da tecnologia. Por outro lado, há os que dizem que ele é o futuro da internet.

O debate sobre esse tema chegou para ficar, independentemente de quem esteja correto na percepção desse assunto. Ao analisar quais as possíveis tendências e previsões para 2022, nota-se que o metaverso é a única unanimidade.

Um estudo realizado pela On The Go (2022) identificou expectativas e entendimentos sobre o tema com brasileiros, possibilitou a compreensão de suas especificidades e, por meio das informações obtidas, constatou que é uma ferramenta para os gestores tomarem decisões em seus negócios. A pesquisa pautou-se nas seguintes questões: qual o entendimento sobre o metaverso? Qual é sua aceitação? Quais marcas e quais segmentos de empresas gostariam de ver presentes no metaverso?

Para tanto, utilizou metodologia conversacional via chatbot, totalizando 65 horas de conversas/entrevistas com 401 pessoas com mais de 16 anos e com acesso à internet das cinco regiões do Brasil, sendo 58% do total da amostra do sexo feminino e 42% do sexo masculino, classes A, B e C, com recorte geracional entre as gerações Z (37%), Y (43%) e X (20%). Os resultados apontaram que 56% dos participantes declararam saber o que é o metaverso, e parte dos entrevistados (12%) acredita que o metaverso é apenas uma grande empresa de tecnologia.

Se relacionar essa resposta com a estratégia do Facebook, que mudou o nome para Meta, verifica-se que foi uma ação positiva, pois criou uma associação na cabeça das pessoas entre metaverso e a companhia de Mark Zuckerberg. No que concerne à compreensão do conceito de metaverso, 55% consideram-no como mundo virtual gerado por computador em que as pessoas podem socializar, trabalhar e jogar.

Ao serem questionados sobre a visão deles a respeito do metaverso, foram obtidos os seguintes resultados a partir de suas respostas: a maioria dos participantes possui uma visão positiva, 72% acreditam ser o futuro da tecnologia, 70% compreendem ser uma tendência que crescerá cada vez mais, e ser uma evolução natural da internet corresponde a 65%. As visões negativas também foram identificadas com 16% declarando ser coisa para jovem, 10% julgam a tecnologia como socialmente excludente e aqueles que o consideram como moda passageira corresponde a 5%.

Ao investigar quais finalidades gostariam de explorar primeiro no metaverso, o estudo revelou que os entrevistados acreditam que em diversas áreas de nossas vidas, como atividades sociais, relacionamentos, assistir a séries, filmes, jogos, shows virtuais. Em relação às atividades do dia a dia, destacam-se trabalho, estudo e ensino, compras.

As três gerações X, Y e Z são unânimes quanto às prioridades de trabalho e estudo. No que se refere a investir dinheiro no metaverso, prevalecem as opiniões como algo inseguro. Essa insegurança pode ter origem não somente no fato de o metaverso ser algo novo, mas no próprio hábito de investir dos participantes.

No tocante a quais marcas gostariam de ver no metaverso, a pesquisa mostrou que não existe uma específica, mas os entrevistados acreditam que será criado um mundo virtual em que as marcas que ficarem de fora perderão dinheiro. Para o segmento de moda, 27% dos participantes gostariam de ver as marcas Riachuelo, Zara, Netshoes, Avon, Arezzo e C&A.

No seguimento financeiro, os mais citados foram Banco do Brasil, Itaú, Caixa, Bradesco, Santander, PayPal e Nubank. A educação é uma das áreas de maior expectativa. Assim, 70% julgam que a tecnologia poderá ampliar as possibilidades de imersão no mundo do ensino.

Ao relacionar os resultados da pesquisa com as possíveis ações estratégicas que se pode aplicar nos negócios, é importante considerar que mais da metade dos participantes da pesquisa conhecem o metaverso e se sentem bastante animados para testar as possibilidades trazidas pela nova tecnologia. Fica evidente que possuem uma visão clara de que haverá grande interseção entre a vida analógica e a off-line.

De acordo com os resultados da pesquisa, observa-se que existe também uma parcela expressiva que não conhece o metaverso e outra que o considera uma rede social, uma plataforma de jogos ou site de compras. Desse modo, para adotá-lo em seus negócios e ser bem-sucedido nessa iniciativa, é fundamental refletir sobre o que seu mercado pensa sobre ele.




Perspectivas para o varejo em 2022

Promovido anualmente pela National Retail Federation (NRF), o maior evento do varejo, Retail’s Big Show, ocorrido em janeiro deste ano, em New York, EUA, debateu diversos temas, como o papel da loja física, evolução do e-commerce, diversidade, sustentabilidade, liderança, novo consumidor, ecossistemas, tecnologia. A omnicanalidade, já conhecida pelo varejo, também foi analisada, porque, em virtude da pandemia, essa estratégia vem se concretizando para atender o consumidor atual.

Alguns assuntos não são recentes, mas foi possível verificar, na prática, a evolução do varejo, pois os temas apresentados e debatidos ganharam notoriedade com a pandemia, a qual acelerou muitas mudanças de estratégias para atender o consumidor, que ficou restrito a determinadas formas de realizar suas compras. Entre eles, o metaverso, definido como um espaço coletivo e virtual compartilhado e constituído pela soma de realidade virtual, realidade aumentada e internet, foi destaque nos painéis.

Com a pandemia, ganhou notoriedade por facilitar ações e estratégias que podem ser utilizadas com a finalidade de atrair marcas e consumidores para o mundo virtual. O termo foi cunhado pela primeira vez na obra “Nevasca”, de Neal Stephenson, lançada em 1992, e, no contexto atual, é considerado como uma tendência para o varejo.

O metaverso refere-se a um espaço on-line compartilhado por pessoas que utilizam tecnologias como realidade virtual e realidade aumentada para interagir com o próprio espaço, com conteúdos e com outras pessoas por meio de avatares. Para a sócia-diretora da Moisaclab, Karen Cavalcanti, “o futuro da posse é a posse virtual”.

Ao utilizar esse universo virtual, é preciso compreender que é um ambiente de cocriação. Existe um storytelling que iniciou no e-commerce, passou pelo live commerce e pela realidade virtual e aumentada, e que se transformará no metaverso, segundo o CEO da Gouvêa Experience e da Campus Party, Tonico Novaes.

Os outros temas, já de conhecimento do varejo, também foram muito bem abordados, e isso permitiu aos participantes agregar conhecimento necessário levando-se em conta o contexto atual. Descrevo a seguir os que mais se destacaram.

Primeiramente cito qual o papel das lojas físicas. Ficou evidente para os varejistas que não desaparecerão, o que está acontecendo é que elas estão adquirindo novas funções, como hubs logísticos – locais estratégicos escolhidos pelas empresas para redistribuição e escoamento mais rápido de suas mercadorias. Quanto ao e-commerce, ele mostrou ter atingido um estágio de maturação, e fala-se em out-of-commerce, que precisa ser interativo e divertido para os consumidores das novas gerações. É fundamental saber como explorar melhor os influenciadores e o conteúdo, bem como de que forma conduzir o live commerce para que este não seja apenas uma plataforma de engajamento, mas que também traga resultados para as empresas.

O tema diversidade não é novo, mas, com a pandemia, se tornou ainda mais relevante. Apresentou-se como adotá-lo na prática. A liderança na visão dos expositores mudou, visto que ela precisa se transformar e conhecer como a nova geração almeja ser liderada ou refletir se ela quer ficar sob influência ou domínio de um líder.

Para trabalhar com o novo consumidor, o varejo precisa priorizar a empatia. Hoje o consumidor é mais atento aos propósitos e valores que norteiam o varejo, típica característica da sociedade 5.0, e isso exige deste um olhar mais cuidadoso para poder esse consumidor.

Outro painel abordou o tema de ecossistemas de negócios. Trata-se de uma inovação nos modelos de gerenciamento empresarial considerando toda a comunidade econômica que tem ligações com o trabalho realizado pelas empresas. Esse conceito gera dúvidas entre os empreendedores, em especial sobre seu significado, seus benefícios e oportunidades que ele proporciona.

É claro para o varejo que deve compreender esse sistema para manter a competitividade, acompanhar as tendências e, desse modo, obter sucesso nos negócios, pois são estruturas dinâmicas de diferentes organizações que estão interligadas e dependendo umas das outras para obterem sucesso. Assim, elas conseguem gerar valor para os clientes.

Quanto ao aspecto tecnologia, ressaltou-se que a mudança nos hábitos dos consumidores está levando os varejistas a transformar a maneira de fazer negócios. Nesse sentido, o varejo precisa ficar atento para o uso do machine learning, da inteligência artificial e da automação dos serviços de atendimento aos clientes, uma vez que tais ferramentas facilitam tanto o pagamento feito pelos consumidores na ocasião em que efetuam suas compras quanto o controle de estoque em tempo real.

Diante dos temas apresentados e do atual e complexo cenário do varejo mundial, é importante considerar as variáveis para atender o consumidor da forma que ele quer, onde quer e em qual momento, mas sempre analisando a especificidade do varejo brasileiro.